11ª EDIÇÃO

fevereiro 20, 2013 - Leave a Response

Jorge Sardi, escritor de raízes italianas, nascido em Santiago de Chile é formado em Filosofia e Literatura.

Seus contos estão inseridos na rica tradição literária Hispano-Americana.
Com seu estilo de relatos breves e elegantes, Sardi cria delicadas intersecções entre a realidade e a fantasia percorrendo as geografias e a universalidade mais profundas das relações e dos sentimentos humanos coloridos pela experiência existencial sob sua percepção atenta e sensível.
Sardi vive e produz em Valparaíso, cidade chilena notável pelo perfil boêmio de grande produção artística.
As fotos que ilustram seus contos também são de sua autoria.
Sua colaboração em língua castelhana nos dá enorme prazer e alarga as fronteiras de nosso blog.

LEDA SENISE-LONDRES-FEVEREIRO DE 2013

JORGE SARDI – RELATO I e II

fevereiro 20, 2013 - Leave a Response

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Relato I

Al bajar las escaleras camino a mi trabajo, algunos trozos de ti se desprenden y caen sobre mí. Es de madrugada y desde los techos, entre el alumbrado público o a través del viaducto del gas, algunos intangibles trozos de ti caen sobre mí metiéndose en mis ojos, orejas y labios. Después, al llegar a la calle desierta a esa hora y el brillo alrededor por la lluvia recién caída, siento un mareo subterráneo y comprendo, el frío de frente, la luz rebotando, que nunca me has abandonado.

Relato II

Me quedo aquí, de pie, frente a ti sin decir nada. Me gustaría decirte algo, pero no se me ocurre. Y en este espacio de tiempo, en estos segundos que van a desaparecer en cualquier momento, seguimos mirándonos, tratando de sonreír y en especial, de tranquilizarnos. Afuera el clima vive con un sol espléndido, brillante, de aroma inusual. Entonces cuando llaman a la puerta, algo enturbia tus ojos y como un idiota, creo que estás pensando en lo bueno que se te viene en esta nueva etapa de tu vida. Al despedirnos, tampoco hablamos.

JORGE SARDI – RELATO III

fevereiro 20, 2013 - Leave a Response

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Relato III

Un niño sale de madrugada envuelto en su grueso abrigo de lana abrochado hasta el cuello. Hace frío. De la capucha que cuelga a sus espaldas, el gato mira el paisaje. Ellos son amigos. De vuelta, antes de llegar a su casa después de la escuela, el niño saca al gato de la capucha y lo esconde en el bolsón junto a sus libros y cuadernos: en casa no admiten animales y mucho menos a un gato o a otro bicho pulguiento. Entonces el niño, faltando una cuadra aún, se acomoda la ahora entibiada capucha por su amigo sobre la cabeza, y silba. En su habitación, le tiene una madriguera: un agujero detrás de la cama disfrazado a su vez con un cartón que imita la continuidad del muro de un modo imperceptible. Una mañana, en que los días eran más breves y crudos, el niño, al ir a sacar al gato de su escondite, lo encontró muerto. Llorando silenciosamente, con la garganta hecha un puño, lo introdujo en su bolsón, fue hasta la bahía, y asomándose al puente, llorando aún, abrió su pequeña mano dejando caer el saco de cuero al agua. Esa mañana no fue a la escuela. Y caminando triste por la costanera, se puso la capucha helada sobre la cabeza, teniendo en cuenta que al volver por la tarde, tendría que dar enormes explicaciones por la brusca pérdida del bolsón y su insólito abandono con el grueso abrigo de lana de ahí en adelante.

JORGE SARDI – RELATO IV

fevereiro 20, 2013 - Leave a Response

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Relato IV

Al salir lo primero que hace es encender un cigarrillo y escupir sobre la calle. Son las siete de la mañana de cualquier día. Después piensa con todas sus fuerzas en su hermano enfermo, el que no puede levantarse. Luego camina, calle abajo, con una calma de otro mundo que cualquiera se quisiera. Es otoño y es Valparaíso también. Trabajar de nochero en un hotel no es lo más bonito del mundo, pero qué más da, peor es andar por ahí viendo cómo sacar algo de plata en esto o lo otro, de allá para acá. Y camino a su casa, se mete a la panadería, una de las pocas abiertas a esa hora en la ciudad, y compra pan para el desayuno, un poco de jamón, queso y un paquete de galletas bañadas en chocolate. En la calle nuevamente, lo primero que hace es encender otro cigarrillo, escupir sobre la vereda abrigándose con las solapas de la casaca. Entonces, cuando la luz del día empieza a asomarse por todos lados, entra a la cocina, deja la bolsa e inmediatamente se va hacia la pieza de su hermano, que en ese momento, como cada mañana a esa hora, ve la televisión. Y se recuesta en su cama, casi con cuidado, a su lado, preguntándole: ¿Qué ves? No sé, una película o quizá las noticias, ya me pierdo, responde. Luego, hay un silencio de dos segundos que podrían ser dos semanas o diez años en que ambos miran hacia la televisión. De piedra. Y antes que salga el sol del todo, mete su mano en el bolsillo de la casaca sacando el paquete de galletas diciéndole, sin dejar de mirar la tele un instante: te traje esto. Dos minutos después, así, vestido y sobre la cama, se queda dormido.

LEDA SENISE – LONDRES

fevereiro 20, 2013 - Leave a Response

FRAGMENTOS 1 e 2

1.

Já não se importava de combinar cores ou padrões, muito menos tonalidades ou estampas desde que deixara sua terra de origem a qual não sem lembrava mais qual era. Seu corpo tornara-se com o tempo e esse constante deslocamento, seu verdadeiro e único território. Onde quer que estivesse, estrangeira ou não, já que não sabia qual era sua pátria, simplesmente estaria porque ali estava com seu corpo, seu país.

Cobria-o de adornos que refletissem à luz do sol como um diamante no verão ou simplesmente se fundisse às nuvens e os dias cinzas do inverno em monocromias de onde sobressaíam apenas os pontos de um eventual tricô ou leves bordados em tons sobre tons. As noites eram rigorosamente negras ou cobalto e as estrelas lantejoulas achadas aqui e acolá em lixos dos grandes armarinhos.

Vagava pelas ruas à espreita de retalhos do dia a dia juntando frases, pessoas, restos de frases e escrevendo-os em folhas soltas de papéis também catados aqui e e acolá onde o vento os levasse e deixasse. Tudo flutuava naqueles dias. Folhas também e delas fazia grossos tapetes que levava dias a tecer e sobre os quais pisava prazeirosamente descalça deliciando-se ao som das folhas secas quebrando-se, cedendo ao peso de seu corpo.

Certa vez desnudou-se junto a uma fonte para vestir-se de folhas mas os policiais gentilmente a levaram para uma sala e a fizeram vestir-se de novo sem estranhar sequer sua vestimenta de retalhos do cotidiano e a escoltaram para a rua de novo.

Mal não houvera. Nem crime intencional.

Nos fins de tarde de verão quando o sol entrava noite adentro sentava-se e com os próprios dedos tornados agulhas costurava seus trajes de retalhos acumulados como lembranças leves e pesadas de cores tristes e brilhantes como só a vida sói ser, em sua riqueza infinita, pensava. E desfilava ao som de pianos e sinfonias enquanto os passantes lançavam-lhe olhares admirados ou compreensivos e às vezes a saudavam afetuosamente jogando-lhe moedas como se jogam migalhas aos pombos em praças públicas e parques.

Mudava e deslocava-se daqui para ali porque não sabia fazer outra coisa senão seguir o vento e as núvens nos céus, e sonhar.

Um dia acordou em um banco de cimento à beira mar. O ar era morno mas os céus eram cinza e baixos como se fossem chover. Alguém deixara pão fresco ao seu lado com um copo de papel ainda quente cheio de café com leite cujo perfume misturava-se ao das algas marinhas da beira do mar.

Tomou o café com leite em pequenos goles soprando de leve para esfriá-lo. Quando levava o pão à boca notou um cão que a observava e começou, pedaço por pedaço, que partia delicadamente com seus dedos de agulha, a dar-lhe o pão fresco enquanto caminhava para o mar seguida pelo cão, tirando peça por peça suas roupas pratedas como a areia de cascalhos até chegar nua à beira do mar. O cachorro saltava alegre, latindo, pedindo mais pão, a espuma lambendo a areia e cobrindo suavemente seus pés.

– Não vê que não tenho mais nada para dar ? perguntou-lhe sorrindo. Deixei tudo para trás, disse tirando uma pulseira de moedas deixando-a cair na areia prontamente coberta pela água do mar e desaparecendo.

– Sumiu! E riu !

Sentiu a temperatura da água com as mãos e enquanto o sol se levantava no horizonte e o cão ladrava alegremente foi andando mar adentro, nua, completamente esquecida de que não sabia nadar.

2.

O homem entra e senta-se à minha frente no metrô parcialmente vazio. No meio da tarde eu me dirijo à estação Victoria onde tomarei um trem para o aeroporto e daí para Madrid. Meus pensamentos vagam sem direção enquanto observo o homem. Bonito, relativamente jovem, nariz aquilino, o que lhe confere uma certa nobreza de traços, olhos puxados, muito azuis, pele em tom matizado suavemente batida pelo sol de recentes férias, cabelos aloirados escasseando. Comum. Atraente.

Pergunto-me , observando-o, o que acho de tão atraente nele que pode passar por qualquer um no meio de uma tarde de inverno, no metrô semi vazio em Londres. Perfeitamente comum com sua mochila cinza no meio das pernas semi abertas.

O homem agora procura algo na mochila. entendo que ele é muito parecido com minhas lembrancas. Ele é muito parecido com lembranças que sao uma colagem, quase um pastiche, de olhos, narizes e bocas que me chamaram a atenção um dia, no meio de uma multidão, observando um quadro num museu, deitado ao meu lado depois de uma noite de amor. Esses rostos que se interpoem e se dissolvem depois quando o tempo inefável, destrói os fatos, o físico e os transforma em lembranças ou, como querem alguns, em memórias, em experiência…. e com este último sorrio, cínica. Solidão, isso sim, penso.

Ele não é bonito, ele simplesmente me lembra alguém, o que o torna bonito e que tornou bonito o objeto de minha lembrança de certo tambem não é bonito. Foi bonito porque foi vivo!

O homem tira de sua mochila um pequeno sanduíche de finas fatias de pão preto enquanto eu o observo atentamente, sem pudor, desembrulhar seu lanche doméstico do papel filme. Talvez preparado por uma companheira cuidadosa, penso eu. Mas não. O arranjo todo é seco e prático. Masculino. Sentindo-se observado ele dá a primeira mordida no sanduíche, levanta o olhar que encontra o meu. Sorri com os olhos, eu respondo e desvio o olhar retribuindo a gentileza , deixando-o à vontade para comer em público.

Ele veste uma camisa social cor de rosa. O colarinho aberto deixa ver uma camiseta branca embaixo e um abrigo esportivo impermeável por cima dos dois. Quando termina seu sanduiche, enquanto meu pensamento vaga pelas lembranças que ele me despertou sem saber, o homem tira de outro embrulho da mochila duas cenouras cruas e dedica-se tranquilamente a comer uma delas.

Nossos olhares não se cruzam mais.

Eu estou agora irremediavelmente mergulhada na reflexão que me fez descobrir que tantos anos de submissão doentia era pura e simplesmente um ardil do meu coração ferido para proteger-me de novas relações, novas traições, novas entregas. Nada mais seguro do que um amor impossível para manter-me a salvo de outros.

Quando me preparo para descer em Victoria, o homem encontra uma gravata vermelha em sua mochila e põe-se a ajeitá-la sob o colarinho da camisa cor de rosa.

A gravata vermelha sobressai-se vivamente no metrô vazio, na tarde cinza de inverno.

Percebo quer por trás de toda estas ações, de meus pensamentos, de minha viagem, está o novo, o perigo, arranhando as fibras do meu coração como um animal à procura de abrigo. Estava aí o tempo todo como pano de fundo. A ameaça, o abismo, flamejante, interessante., um ectoplasma que assustadoramente cria corpo e avança a passos lentos minha vida adentro como uma gravata vermelha no metrô vazio, na cidade vazia, na tarde cinza e fria.

O futuro.

Uma gravata vermelha numa tarde de inverno.

Mudando a direção do meu pensamento desço a plataforma e me dirijo à estação a passos firmes, puxando minha mala de rodinhas, ouvindo a trilha sonora das estações, esse burburinho de gente que vai e vem, olhos que não se cruzam, mil rodinhas de malas que partem e chegam, enquanto as portas do metrô fecham-se às minhas costas com uma batida seca.

NAUM ALVES DE SOUZA – PAPA

fevereiro 19, 2013 - Leave a Response

DÉCIMA EDIÇÃO

dezembro 29, 2012 - Leave a Response

Caros amigos dos Contos da Era do Blog.
Feliz Ano Novo.
Este blog tem dado, a Leda e a mim, um prazer de escrever, cada vez maior.
Continuaremos em 2013.
Obrigado a todos pela leitura, pelo estímulo.
Cada contato do leitor nos dá força.
Por favor, divulguem. Vamos insistir: água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Saúde para todos.

Naum Alves de Souza (São Paulo)
Leda Senise (Londres)

DEZ 2012

NAUM ALVES DE SOUZA – SP

dezembro 29, 2012 - Leave a Response

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O ESTRELA DE SANTAREM

 

A bordo do Estrela de Santarém ! Quem diria ?

O camarote pequeno, simples demais, a cama estreita e curta a obrigava a dormir de joelhos ligeiramente dobrados, a porta para o acanhado banheiro, tudo pintado  com tinta a óleo cinza; o teto era da mesma cor  mas um olhar atento encontraria vestígios  de outros tons de cinza ou mesmo de um creme amarelado ou um verde desmaiado. Construído com lata ou ferro, não dava para identificar a presença de metal a não ser no chão de placas parafusadas em lugar dos azulejos comuns das construções da terra firme. Ranhuras ondeadas, rigorosamente paralelas em baixo relevo para garantir mais equilíbrio ao passageiro caso houvesse turbulência nas águas, coisa rara com bom tempo, pois a navegação em rio é mais livre de ondas. Na parede onde estava afixado uma espécie de criado mudo, uma pequena escotilha permitia ver a  a tediosa paisagem das margens devastadas pela extração de madeira ou a água barrenta que se perdia de vista, o falado mar de água doce. Acima do travesseiro, ao lado da luminária, ela colou com fita adesiva uma pequena imagem de Santa Teresinha de Lisieux, onde se lia uma reza.

Dona Lina, alta como uma jogadora de basquete, professora de latim há pouco aposentada, viajava por conta da passagem – pacote de sete dias – ganha em uma rifa da igreja católica da cidade onde morou nos últimos 30 anos e  estava prestes a deixar e se mudar para Santa Bárbara onde a aguardava sem habitantes a grande casa construída por seu avô. O irmão mais velho, solteirão afeminado, belo como Tyrone Power, professor de trabalhos manuais, tinha sido o derradeiro habitante e, alguns meses antes de sua morte trágica, havia deixado o casarão mobiliado e reformado com esmero.

Dona Lina jamais havia imaginado ir para a Amazônia. Teve que ir para São Paulo de ônibus e  de lá voou até Belém onde embarcou no navio de turismo que fazia a viagem até Manaus na contra corrente. Navio simples, sem divisão de classes. 

Dona Lina passara trinta anos no mesmo colégio estadual a ensinar Latim, língua morta da qual ela sentia o maior orgulho apesar do desinteresse dos alunos cada vez maior; já não queriam decorar as declinações, os pronomes, conjugar os verbos, viviam a perguntar sobre o porquê de se aprender o que não se falava mais. Um dia, deu um suspiro fundo e tentou explicar a uma aluna:

“Se um dia você estiver com seu filho diante de um monumento e se deparar com palavras escritas em  Latim, ele pode querer saber o significado.”

A menina gargalhou e a classe fez o mesmo.

“E daí ?”

“Você não vai saber.”

“E daí ?”

A classe riu, ela tentou encontrar outro argumento.

“Vocês já repararam que muitos brasões e bandeiras têm frases em latim ?”

Uns poucos alunos lembraram-se de Non Ducor Duco, Libertas Quae Sera Tamen mas tinham esquecido a tradução.

“Atenção, classe, quantos aqui sabem que nossa língua portuguesa, o francês, o espanhol, têm origem no Latim ?”

Um meninão repetente que se sentava na última carteira e sempre se escondia, perguntou:

“Pra que serve aprender isso ? E por que a gente não aprende Língua Brasileira se a gente fala brasileiro ?”

Dona Lina sentiu a dor da úlcera mas a aluna mais adiantada, nota 10 em quase todas as matérias encerrou a discussão:

“Minha mãe falou que a Secretaria da Educação está estudando um projeto de acabar com as aulas de Latim.”

“E o que a senhora vai fazer da vida se só sabe ensinar Latim ?”

Dona Lina deu um tapa estrondoso na mesa:

“Chamada oral para nota !” 

Tocou a sirene do navio avisando o horário do almoço dividido em dois turnos devido ao pequeno espaço do refeitório. Dona Lina, que se inscrevera no primeiro grupo pois tinha ouvido falar que o serviço era melhor, saiu, fechou a porta e subiu a escada que levava para o tombadilho onde já havia uma fila formada. Colocou-se depois da última mulher, Ada, senhora falante, popularíssima desde a hora do embarque, mãe de menina com doença degenerativa, que procurava dar à filha toda a alegria que pudesse.

Todo o navio sabia a história da adolescente Atena, contada pela mãe Ada: quando nasceu era um louro bebê gorducho, sorridente que mamava mais do que a maioria dos recém-nascidos daquela maternidade; entretanto tinha um sono perturbado, acordava e chorava um sem número de vezes, o que fez o pai abandonar a casa quando ela tinha pouco mais de cinco meses. O crescimento físico foi normal mas  perturbado por  fortes dores de cabeça e, a partir dos seis anos, começaram os desmaios e tombos aparentemente sem o menor motivo. Os médicos disseram à mãe:

“Dois  anos de vida, no máximo”.

Ada não quis ou não soube repetir o nome da doença aos demais turistas do navio. A partir da hora do diagnóstico, programou em uma agência incessantes viagens sem volta para casa. Sua filha haveria de ser feliz durante esse tempo. Não era rica, o marido pagava uma folgada pensão para ela e para o sustento de Atena. Dava. Mesmo empurrando uma cadeira de rodas, foram  à Disneyworld, ao Pantanal, às dunas de Natal, às cidades geladas da serra gaúcha, às Cataratas de Iguaçu, a Bariloche, Machu Pichu, Pirâmides do México, Fátima, Lourdes, Aparecida e muitos outros lugares onde diziam que Nossa Senhora havia aparecido e, uma vez ou outra, podia surgir do além iluminada e cercada de estrelas. Ada e Atena aproveitaram para rezar por si mesmas e pela humanidade. 

Dona Lina, longe de seu latim conservado apenas no Pater Noster diário, perfumada de repelente contra insetos como todos os turistas a bordo, sentou-se ao lado de Miss Grace, americana missionária que pouco falava português. “Se Miss Grace falar em inglês eu vou responder em latim.” Desse lugar a americana podia sorrir efusivamente para todos que  entravam e dizer God bless you. Miss Grace carregava em sua bolsa uma penca de fantochinhos bíblicos que ela usava para divertir as crianças. Algumas não gostavam e davam jeito de fugir e se esconder em outros cantos do navio. 

Começou o serviço do almoço dividido em três etapas – salada de legumes e ovos cozidos, prato quente com carne, frango ou peixe e sobremesa de frutas. Refrigerantes podiam ser pedidos mas eram cobrados à parte. As mesas presas ao chão tinham galeteiras fixas com óleo, vinagre, sal e pimenta do reino. Dona Lina pediu guaraná sem gelo e Miss Grace regalou-se com água mineral gasosa gelada pois tinha pavor das águas do rio, dos trópicos, de todos os países subdesenvolvidos, cheias de vermes, vírus, poluentes.

Escovava os dentes com água mineral e já saíra de seu país com mil recomendações sobre o que fazer para não pegar malária, febre amarela, béri-béri, aftosa, desinteria, doenças venéreas e se defender das picadas de escorpiões, cobras, mosquitos da dengue e da mijada de um venenoso sapo das selvas que cegava. Era comum vê-la andando com uma rede de tule amarrada no chapéu, a borrifar repelente no corpo inteiro. Crente em Deus e no porvir, sorria e dizia amar o próximo como a si mesma. Uma de suas obsessões era alegrar quem não podia escapar, o seja, a pobre Atena já excessivamente animada pela mãe ansiosa e  descontrolada, que marcava em um diário os dias do prazo de validade da filha. Aos poucos Atena aprendia a se defender com bocejos, desmaios, acessos de tosse, ameaças de vômitos. Como faltava uma semana para o Carnaval, depois do banho Atena era vestida com fantasias, uma por dia, todas compradas na Ladeira Porto Geral ou no Saara do Rio. Pirata, Nega Maluca, Rumbeira, Fada, Portuguesa, Cigana, Japonesa, Dançarina do Frevo, Francesinha, Bailarina Clássica. Quando a viram pela primeira vez alguns turistas estranharam:

 “Ada, você está louca ?”

“Não, não estou louca não, cada dia minha filha neste mundo há de ser marcada por uma alegria. Até…”

Entenderam. Atena estranhou um pouco as saudações por demais efusivas mas gostou; quando as duas entravam no salão para tomar o café da manhã recebiam uma salva de palmas. 

Sobretudo graças às atividades sociais do navio,  formaram-se grupos de passageiros; o de Dona Lina,  formado por ela, Cacilda e Carlinhos, jovens em lua de mel, Seu Miguel, português viúvo da Ilha da Madeira, Hebe e Otília, ex-alunas do Colégio Santa Cecília, da mesma cidade de onde viera Dona Lina tinham muita sorte no bingo. Outro, que sem querer provocava risos, de velhotas japonesas recatadas, não se desgrudava, ora temerosas mas em geral curiosas,  sempre com aqueles sorrisos incompreensíveis para ocidentais, eram imbatíveis em pingue-pongue e dobraduras. Protegidas por pequenos chapéus de pano ou palhinha trançada, anotavam e fotogravavam tudo que viam. Edith, nissei, a guia da excursão e intérprete, havia posto em suas lapelas crachás com nomes anglo americanos – Daisy, Doris, Thea, Gloria, Susy, Sandy, Alice.

Apesar da barreira linguística, não conseguiram escapar à fé missionária de Miss Grace que as atacou com seus fantochinhos do velho testamento, uma bíblia na mão e folhetos contra o fumo e o álcool. Respeitosas, as orientais aguentaram o culto pop sem reclamar, fizeram reverências quando tudo acabou e não se via em seus rostos o menor sinal de deboche ou saco cheio.

Miss Grace ficou ainda um tempo no convés de olhos fechados e braços amplamente abertos agradecendo ao Salvador pela conversão de mais uma penca de almas budistas. O navio fez uma pequena manobra, ela caiu e quebrou a cabeça do fêmur e o antebraço direito. O médico de bordo fez o que estava ao seu alcance até a chegada do navio em Manaus onde Miss Grace decidiria operar-se no Brasil ou voltar para sua terra. Foi por causa desse episódio que todos ficaram sabendo que Miss Grace viajava acompanhada de um sujeito, um marido, que se recusava a sair da cabine, um homem muito mais novo que ela, bonito, musculoso, que se exercitava no convés de madrugada depois que todos já estavam dormindo.

O médico de bordo contou ao capitão que o tal marido queria que chamassem um helicóptero, como nas séries de televisão.

Aquele que era chamado de médico nunca havia se aproximado de uma escola de medicina  na vida. Trabalhou como enfermeiro em diversas Santas Casas no interior de Goiás e do Maranhão onde aprendeu noções de pronto-socorro e observou o que os médicos faziam. Mas nunca se meteu a fazer cirugias, apenas costurou acidentados quando não tinha saída. Um dia, em Belém, conheceu o capitão Benevides em um asilo para velhos onde ambos visitavam suas mães. Dali foram a um bar, beberam e o doutor acordou dia seguinte em um dormitório coletivo do Estrela de Santarém. Para virar o médico de bordo não precisou de muita ciência e sim do armário de medicamentos da enfermaria do navio. Seu antecessor, que também não era médico, tinha se aposentado.

“Difícil aparecer inspeção sanitária, é só você estar sempre vestido de branco que ninguém vai pedir o seu diploma, doutor.”

Os dois riram, apertaram-se as mãos, à noite fizeram um brinde e não se esqueceram de dedicar um gole ao santo pois afinal de contas precisavam mesmo de proteção do além. 

“O Estrela de Santarém não tem capacidade nem espaço para receber o pouso de um helicóptero !” 

O resto do dia foi tenso. Dona Lina, que não se separava de seus comprimidos de valeriana e maracujá, tomou sua dose e dividiu com os amigos mais próximos. O casal em lua-de-mel embebedou-se-se com copos e mais copos de água com açúcar e um pouquinho de vinho licoroso receitados por Hebe e Otília.

“Quando tinha tempestade com raios e trovões, mamãe reunia os filhos debaixo da mesa, lia a Bíblia e cada um tomava um gole  dessa água santa e que não faz mal”, disse Otília.

“Meu pai era médico  e a gente sempre tomou um pozinho que ele mesmo misturava e socava no almofariz. Era um pouco amargo mas, misturado com laranjada e sal efervescente, ficava uma delícia. Não dava nem tempo de rezar, a gente dormia na hora !”, contou o português da Madeira.

Os passageiros ficaram inseguros, alguns mesmo em pânico a pensar em acidentes, naufrágios e outras desgraças. Só as crianças tiraram proveito da situação e inventaram brincadeiras que desagradaram os mais velhos. 

O capitão, ao lado do médico e membros graduados da tripulação, reuniu os turistas que ouviram uma curta preleção sobre a segurança do navio e das viagens fluviais. “Você corre mais perigo dentro do seu automóvel do que neste navio.”

No jantar, estimulados pela caipirinha extra oferecida pelo capitão, surgiram versões de como seria a remoção de Miss Grace.

“Presa por um colete e içada por um helicóptero, a velha vai balançar sobre as águas do Amazonas e atrair piranhas, jacarés, anacondas e os vírus que ela tanto teme.”

Um passageiro mais gaiato descreveu Miss Grace de outra maneira:

“Já pensaram a gringa dentro de uma rede bramindo seus fantoches bíblicos para os bichos do rio, que nem um moderno São Francisco de Assis ?”

“Será que ela anima o marido com aqueles bonequinhos ?”

De vez em quando dava para ouvir os uivos de dor da americana vindos de seu camarote. 

Nos dias seguintes quem subiu foi o marido que, dourando-se ao sol amazônico vestido com uma sunga reveladora, mexeu com os interiores de Hebe, Otília e mesmo de Dona Lina, certamente virgens sem mais remédio. Ada, sem homem desde o final de seu curto casamento, gostou do que viu e falou ao ouvido de Dona Lina:

“Que desperdício esse filé mignon na cama daquela gringa feia !”

“Você deve ter reparado que ele não fala uma palavra em inglês.”

“E precisa, nega ?”

O riso delas se transformou em tosse e uma precisou dar tapas nas costas da outra. Hebe e Otília, ao saber do malicioso comentário, mijaram nas calças e precisaram correr ao banheiro. Atena perguntou à mãe a razão de tanto riso mas levou um tapa na cara, o primeiro de sua vida. Ada culpou-se e chorou o resto da tarde de puro arrependimento. 

Dos cinquenta passageiros, cinco ou seis não se enturmaram por diversas razões. Um senhor, seu Artur, acompanhado pelo filho, já estava bem encaminhado na estrada do Alzheimer, o “amigo alemão do meu pai”, como brincava o filho.

“Deve ser a última viagem dele e eu queria estar junto. Mamãe faleceu de repente há cindo meses e, desde então, ele foi ficando estranho e os exames deixaram claro o que estava acontecendo.”

Feliz, sempre sorridente e bem vestido, um foulard inseparável no pescoço, seu Artur olhava o rio e imaginava aventurosas pescarias; de vez em quando fazia planos com o filho, pescariam gigantes naquelas águas. Quando foram apresentados no dia da subida a bordo, quase todo mundo ficou escandalizado mas teve que se conformar com a idéia de viverem algemados; o filho temia que o pai se atirasse no rio. E, vice versa.. . Marion, a mal encarada policial vizinha de camarote dos dois  ouvira conversas quando o navio já estava longe e não podia mais voltar: o pai estava com princípio de Alzheimer mas ainda ciente das tendências suicidas do filho mais novo, hsvia cicatrizes em seus pulsos, manchas escuras de picadas nas veias do braço. Em público, apesar da visão das algemas, os dois eram pura alegria, bom humor, alto astral, até dançavam, sapateavam. Conversaram muito com o marido de Miss Grace que só os escutou sem tirar o olho das algemas. 

Ao grupo dos afastados pertenciam também duas religiosas estrangeiras, rumenas segundo boatos, que pareciam muito tristes mas ninguém ficou sabendo por que. Um menino endiabrado ergueu-lhes as saias para espiar a calcinha e descobriu que usavam uma calçona. Apesar do sucesso entre as demais crianças, inclusive Atena que precisou até da bombinha para asma, Agenorzinho levou uma surra dos pais e ficou de castigo, um dia inteiro sem falar, sem dar um pio. E sem as sobremesas do dia que eram sorvetes de frutas da região.

Dona Lina, cheia de boa vontade, tentou se comunicar com elas por sinais que aprendera com os mudos mas nada conseguiu. Contou às amigas que as religiosas cheiravam mal e ninguém mais se aproximou delas. 

Os boatos corriam soltos inventivos, maldosos. Dona Lina nunca ficou sabendo mas tinha sido apelidada por Hebe e Otília de Seu Vicente por causa do buço bigodudo e do pouco cabelo que tinha no alto da cabeça. Por mais que tingisse não tinha jeito, o branco couro cabeludo aparecia. Seu Vicente era alguém de seu passado, um doceiro que vendia quebra-queixo na porta do Grupo Escolar.

Quando faltavam apenas três dias para terminar a viagem, avistaram um navio cargueiro lotado de apetrechos, bagagens, artistas e animais de um circo que também se dirigia a Manaus. Parecia mentira, adultos e crianças ficaram encantados, acenaram para os artistas, alguns até choraram emocionados.

O navio circense os ultrapassou e alguma coisa pegou mal no interior de Dona Lina, sem que ela conseguisse localizar. Não podia explicar sua depressão, o máximo que estivera perto da psicologia foi pelo convívio com uma professora da matéria na Escola Normal. A tal mestra era tão improvisada quanto o médico do navio, suas aulas consistiam em ditados de páginas de um livro conseguido na biblioteca. Dona Lina não conseguiu mais rir das piadas, do pessoal do navio e foi invadida por uma melancolia que preocupou tanto as pessoas de seu grupo quanto outros passageiros do Estrela.

“Quando a gente chegar em Manaus, tia Lina, vamos todos juntos ver o circo, todo mundo do navio ?”

Lina olhou para Atena, passou a mão na cabeça da menina e voltou para sua cabine. Achou um maço de cigarros meio amarfanhado na mala, acendeu um, deu um único e longo trago e o apagou na pia. Deitou-se na cama e imaginou-se escrevendo nas paredes:
“O Latim acabou para sempre. O Latim morreu !”

O Latim que a sustentara durante tanto tempo, que a fizera sentir-se orgulhosa e exclusiva por conhecer uma língua que existia havia tantos séculos, o Latim ia terminar e ela, a temida Dona Lina famosa pelas segundas épocas rigorosas, ia desaparecer junto. Seu nome ficaria nos registros e velhos diários de classe e seu retrato jovem em quadros de formatura de muitas turmas. Lembrou-se do professor Giacometti, “tinha tanto jeito, era tão artista, desenhava à mão flores, mãos, pés, toalhas penduradas com dobras tão bem desenhadas que dava vontade de enxugar a mão”.

Foi aquele grande e pouco reconhecido artista chamado Tommaso Giacometti quem havia desenhado com lápis de cor o rosto de Santa Teresinha que Lina tinha enviado a sua mãe. A pele, os olhos, ah se não fosse a divina inspiração !Que perfeição, que desperdício ele ter ido parar naquela lonjura, naquele colégio estadual sem alma intocado pela graça divina. Não se recordava se ele tinha sido enterrado em Ubá ou Uberlândia, era mineiro, católico fervoroso, vestia-se com túnica roxa e carregava uma pedra pesada nas procissões de Sexta-feira Santa.

“Há pouco tempo me disseram que o professor Giacometti, depois de aposentado, tinha virado pastor evangélico mas eu não acredito. Tudo, menos isso !”

Dona Lina, sem o Dona, apenas Lina, nunca havia parado para pensar mas a apertada cabine do Estrela de Santarém não lhe deu chance de escapar. Ela e Teobaldo, o irmão nasceram em Santa Bárbara mas passaram anos estudando em internatos católicos em São Paulo e Campinas, onde se formaram; em seguida prestaram exames vestibulares, ela para Letras Neo-Latinas e ele para a Escola de Belas Artes. Ele, mais velho um ano que ela, trancou a matrícula durante um ano para frequentar estúdios de pintores em Paris e Florença; ela, mais tímida, continuou seus estudos, tomou aulas particulares de francês, italiano e inglês e só viajava nas férias de Campinas para Santa Bárbara. Teobaldo voltou, retomou a faculdade e, junto com a irmã, prestou concurso para o magistério público. Aprovados, escolheram cadeiras, ele em Pelotas e ela em Bastos, cidade povoada por japoneses, onde ficou um ano e depois transferiu-se para a então próspera Jurupari, onde fincou o pé por trinta anos. Nem ela nem a cidade saíram do lugar. As sucessivas lavouras de café cansaram as terras onde até os pés de tiririca custaram a reaparecer. Mas uma população altiva continuava a manter a pose pois ainda não haviam perdido tudo.

Já aposentado, o irmão morreu assassinado poucos meses após sua volta a Santa Bárbara e seu corpo foi encontrado perfurado por uma centena de facadas em um riacho poluído perto do leito da via férrea desativada. Crime nunca solucionado. Quem viu disse que haviam poupado o belo rosto. Mortos os pais, Lina não pode deixar de ir ao enterro mas não sentiu  um pingo amor pela cidade. Na cabine do navio, agora, suspirava e sentia dor no peito só de pensar em voltar à cidade e à casa sem gente, repleta de lembranças. Sentiu raiva do irmão.

O navio vivia os últimos dias da viagem desse grupo e se preparava para a coroação da Rainha do Estrela de Santarém, a acontecer no penúltimo dia. Discutiram muito se convidariam Lina ou as irmãs Otília e Hebe para coroar a favorita Atena. Outras candidatas choraram, não quiseram saber se a futura rainha era doente ou não e até ameaçaram contar e inventar um dia para seu iminente final nesta terra. Foi preciso uma reunião com os pequenos para fazê-los jurar que não magoariam Atena.

“Se contarem, vocês vão para o inferno, o Diabo vai espetar suas almas e vocês vão ser assados na fogueira de Belzebu para todo o sempre.”

Valeu a ameaça. Ninguém contou e todos fizeram um juramento cruzando os dedinhos.

Combinaram que seu Artur, mesmo algemado, seria coroado rei pelo próprio filho. 

“Atena, Rainha do Amazonas”, “O Rei Artur é pura alegria !.” “Atena é a alma deste navio.” “Seu Artur é muito gente.” 

Comandadas pelo casal em lua-de-mel, várias pessoas se ofereceram para escrever nas faixas de plástico fornecidas pelo capitão. 

Na manhã da festa da coroação, último dia da excursão, Ada bateu à porta da cabine, pediu para entrar e informou Lina de tudo que estava acontecendo. Fez o que pode para animá-la mas parecia uma dor incurável, vazia, cujos defuntos eram o Latim e o irmão assassinado. Inconformada com a apatia da amiga, Ada tentou um último recurso: convidou-a para junto com ela, acompanhar o restante da vida de Atena,

“Vou precisar de reforço”.

Depois de muito chorar, Lina foi ao banheiro, lavou o rosto, passou um leve batom, avermelhou as faces com rouge e pingou uma gota de perfume em cada orelha.  Juntas subiram a escada e foram unir-se ao resto da festeira tripulação.

Sob ordens do comandante, os marinheiros improvisaram  com a mesa do refeitório uma espécie de altar decorado com metros e metros de lampadinhas coloridas compradas no último Natal e flores de plástico variadas usadas mas cheias de boas intenções. Não economizaram nas serpentinas que envolviam o altar, os tronos do rei e da rainha. para subirem, foram postas escadinhas pintadas com a mesma tinta dourada dos tronos que, embora ainda grudando, nznao estragaram a festa.

Atena e seu Artur estavam radiantes. Ada chorava abraçada a Lina. O filho do seu Artur teve que ser incluído e virou uma espécie de príncipe coroado com uma tira de papel feita à última hora. O estranho rapaz também chorou.

Quando Lina depositou a coroa na cabeça da rainha Atena, foi um estrondo de aplausos , rojões mas uma minoria, escutou, perto do trono, uma inconformada garotinha gritar:

“Atena, eu te pego na saída.”

A alma de Ada doeu mas Atena sacudiu os ombros, fez sinal de dor-de-cotovelo, mostrou a língua; estava rainha e linda demais em sua fantasia de fada para se importar com a súdita invejosa.

FIM
11-06-2012

LEDA SENISE – LONDRES

dezembro 29, 2012 - Leave a Response

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CORAÇÃO

Juntou tudo, era pouco, e pôs-se a organizar metodicamente escrevendo rótulos nas etiquetas adesivas brancas de bordas vermelhas, numa caligrafia caprichada colando-os nas pequenas caixas de papelão: “borboletas”, “algodões”, “vestidos”, “retalhos”, etc…
Borboletas emolduradas em pequenas caixas de vidro: cinco, compradas aqui e ali. Amostras de algodões e linhos crus de várias texturas, pesos e tons… alguns bastante amarelados pelo tempo, outros retalhos de velhos bordados, lencinhos de cambraia, iniciais bordadas em ponto cheio, barrados em ponto ajour, outros pedaços de tecidos franjados, com riscos a lápis esperando o bordado, todos enrolados em forma de canudos, presos por uma linha de bordar branca.
Velhos tecidos multicoloridos, bordados com linhas de cor e pedras rústicas de remotas paragens, alguns emendados uns nos outros numa tentativa de recuperar o tempo, alguma forma, a memória ou mesmo a vida, outros deixados delicadamente repousar sua fragilidade, os finos fios desfazendo-se, distanciando-se uns dos outros, desintegrando-se, desaparecendo. Estes embrulhados em fino papel de seda.
Numa pequena caixa amarrada por um laço de fita colou as etiquetas:“vestidos”, na outra “corações”. Nelas colocou cuidadosamente desenhos a nanquin e aquarelas bordadas de vestidos e corações em pequenos pedaços de papel reciclado de pano.
Numa caixa maior colou uma etiqueta dizendo: “ batizado, primeira comunhão” , os dois vestidos de organza branca ricamente bordados, com preguinhas minúsculas, uma coroinha de flores brancas, margaridinhas e jasmins talvez, com um véu de tule de seda muito fino, com algumas mordidinhas de traça. Dentro dessa caixa manteve as almofadinhas de linho bordadas com ervas perfumadas já sem perfume e colocou mais duas recém perfumadas. Nunca se sabe, pensou.

Não havia vestido de noiva.

Empilhou as caixas num canto e sentou-se no meio da sala. No chão. Já não havia cadeiras.
Havia tempos sentia uma enorme dificuldade de estar, de ser, de focar, de relacionar-se com as circunstâncias. Com a realidade? Sim, com a realidade. Precisava sempre do apoio da fantasia, da imaginação, do sonho para seguir a jornada cotidiana que achava terrivelmente entediante e descolorida, cada vez mais violenta.
Achava facílimo perder-se nas páginas de um bom livro transformando-se em letras, frases, personagens, paisagens. Virar… caligrafias… cor…. A música era um passaporte para o desligamento ou melhor para a ligação com outras esferas. O silêncio também.
Desde criança seu olhar distraído via coisas que os demais não viam, seus poros, sua pele sentiam coisas que os demais ao seu redor não sentiam ou percebiam.
Não se tratava de ver fantasmas ou falar com duendes ou ouvir vozes. Tratava-se apenas de perceber algo que não era percebido pelos demais e integrar-se nesse algo com enorme facilidade, fosse uma cor, uma tela, ou fundir-se com uma rocha na natureza ou na aridez de um deserto remoto. Tentar capturar esses momentos era difícil porque eles se perdiam com a facilidade de um fiapo na névoa.
Não se tratava de estimular a percepção com estimulantes de qualquer espécie. Não havia necessidade disso. Era mais simples concentrar-se ou desconcentrar-se ou tomar um avião.
Viver encalacrada no cotidiano com essa estranha possibilidade de liberdade quase ao alcance das mãos, possibilidade tão estranha quanto intangível ficava cada vez mais intolerável. Viajava então pelas células da memória, pelos poros, pelos cinco sentidos. Um perfume evocava uma imagem ou vice versa, um gosto uma lembrança, uma cor um toque de pontas de dedos… mas essas sensações eram tão fugazes quanto um sopro de vento, a brisa do mar, um floco de neve.
Então procurava materializá-las em tecidos antigos ou simplesmente bonitos que encontrasse pelos seus caminhos, pequenos objetos, trouvailles sem nenhuma organização ou pretensão que perenizar o momento ou fazer-se presente através do presente.
Contraditoriamente, quando mais pesado tornava-se o cotidiano mais rarefeita ela se tornava. Às vezes sentia-se invisível até. Ou queria ser invisível. Não por nada, apenas para não sentir trancos e empurrões de passantes nas ruas, por exemplo.
Nesse outono havia acontecido coisas interessantes. O passado havia tomado a forma de um álbum de fotografia, desprezando e ao mesmo utilizando os meios eletrônicos, as novas tecnologias. As comunicações tornaram-se rarefeitas e sem importãncia. O silêncio tornou-se vital, a percepção de sons muito aguda e seu couro cabeludo encheu-se de pequenas erupções.

– Nervoso, disse o médico indicando um remédio.
Nessa noite, talvez por causa do remédio , sonhou que das erupções brotavam plantas delicadas com folhas muito pequenas e caules finíssimos que se transformavam em longos cabelos e ela, criança, estava vestida com um vestido cheio de pregas e lacinhos de dura organza que a pinicava, imóvel num pedestal de madeira, sentindo os cabelos verdes crescerem. De manha as erupções haviam desaparecido e, inspirada, ela desenhou uma mulher de cabelos verdes e foi ao parque para se certificar dos melhores tons a serem usados no desenho.
Ainda havia verdes nas árvores. poucos, e melhores eram os tons de marrons, beges, avermelhados e amarelados, as folhas de várias formas caídas pelo chão ou presas por um fio tênue nos galhos secos das árvores.
Sentou-se num banco, tomou de sua aquarela e começou a fazer uma cartela de cores num pedaço de papel creme enquanto observava as folhas caírem lenta e silenciosamente formando um tapete que o inverno desfaria em pasta e terra gelados. Mas ainda não era hora. Aquelas cores ainda não haviam se transformado em todos os matizes de cinzas e negros.
Absorta em suas cores e folhas não percebeu que alguém sentou-se ao seu lado. Um homem. Quando ele perguntou o que ela estava desenhando ela assustou-se, pulou e deixou cair o pincel e os quadradinhos de aquarelas de dentro da caixa, o vidrinho de água, o papel… foi tudo para o chão úmido de terra. Aflito o homem desculpou-se e começou a ajudá-la a recolher o material.

– Desculpe! Não tinha a menor intenção de assustá-la.
– Não importa, estava absorta demais.
Pegou o material que o homem estendia em sua mão e desculpando-se, com um aceno de cabeça retirou-se. Andou para dentro do parque à beira dos lagos sentindo a umidade entrar pelos tecidos, pela pele, ate os ossos. Sentia-se viva, parte daquela natureza que caminhava para um retiro frio e silencioso de meses, quando as nuvens raramente se abririam para dar passagem ao sol que seria pálido e fraco, o contraste entre os desenhos agudos das árvores desfolhadas e escuras contra a densidade dos cinzas dos céus, fariam da paisagem algo calmo e organizado como uma escrita chinesa com seus traços de infinita elegância e precisão.
Assim perdida em suas sensações materializou-se, desfazendo-se. Essa eterna e cada vez mais difícil contradição. Não pertencer, existindo.
Entrou num café, pediu um chocolate quente e um pedaço de bolo. Enquanto tomava o líquido reconfortante pensava mais uma vez no significado da palavra marginal, no sentido físico de existir e na sua completa ignorância de filosofia, a falta de instrumento para lastrear seu pensamento, um conhecimento que talvez torna-se mais fácil compreender esse estado de suspensão de estar sem estar… cada vez mais.
Rabiscou ideias para um desenho, um poema ou um conto e mais uma vez não percebeu que a avisavam que estavam por fechar o café.
De volta a casa já escuro a garoa molhava o chão e as luzes refletiam-se no molhado tornando as ruas estranhamente iluminadas. Ela própria, sabia, não passava de uma silhueta aos olhos dos demais passantes, como eles eram aos seus também: Sombras. Irreais.
Foi então que decidiu desfazer-se, desenrolar e organizar ao seu redor. Escrever era uma maneira, desenhar outra… gostaria de saber compor e tocar mas não sabia. Então pela segunda vez em sua vida começou a organizar em caixas o que estava a seu redor e lentamente compôs uma escultura no meio da sala. Os homens vieram e levaram as caixas no dia seguinte.
O inútil, o desnecessário, o útil e o necessário num mesmo lote. Iguais, complementares e contraditórios, paradoxais… como tudo de resto, a realidade facetada como um poliedro.
No dia seguinte de manhã desceu a ladeira até o bairro vizinho, parou na frente de uma pequena porta azul, tirou do bolso um pequeno coração vermelho de pedra e colocou na soleira da porta. Voltou a pé debaixo da garoa, comprou um jornal e entrou num café. Leu o jornal desinteressada da tediosa repetição de notícias e voltou sem pressa para casa onde começou a arrumar as pequenas caixas.
Lá fora o dia parecia imóvel até que de repente no meio da tarde a noite despencou, quando tudo estava pronto e arrumado. Sentou-se à mesa, desenhou mais um coração e bordou de dourado e prateado. Enquanto desenhava a sala encheu-se de um aroma de maçãs.
Vinha sendo assim havia algum tempo. Um dia depois do outro, todos iguais, o tempo se desfazendo, nada se fazendo, a vida escorrendo entre os dedos sem a possibilidade de reter nem lembranças e muito menos a memória de sentimentos. Era por isso que juntava pedaços de pano, louças, miniaturas para que elas“segurassem” as energias dos momentos que passavam velozes e tantas vezes só passavam, nem aconteciam.
Não havia nas mãos histórias para contar, nem corações para desenhar. O seu virou folha no parque naquele outono, ia virar gelo no inverno e derreter no verão. As notas musicais silenciavam todas as tardes quando anoitecia e o silêncio era repleto de perguntas sem respostas.
Quanto terminou de bordar, pensativa, olhou durante alguns minutos, ou segundos, não importava os pontos prateados e dourados e jogou o desenho bordado em cima das caixas. Deixou a chave do lado de dentro, a bolsa jogada no chão.
Vestiu o casaco.
Virou-se. Uma ultima olhada para o espaço vazio com as caixas de papelão agora menores no canto, tristonhas, sem vida. Só caixas. Seu conteúdo não tinha o menor interesse para ninguém.
Bateu a porta e saiu para a noite. Garoava. Não precisava guarda chuva.

NONA EDIÇÃO

novembro 23, 2012 - Leave a Response

Esta é a nona edição dos Contos da Era do Blog.

Leda Senise inspirou-se na deslumbrante Costa Brava da Catalunha para escrever “Cap de Creus” e eu no fim do mundo anunciado para 21 de dezembro de 2012. Por coincidência, meu pai nasceu nesse dia, em 1906. Meu conto, geminianamente, tem dois nomes: “Uma História do Ano do Fim do Mundo” ou “Do Mundo Nada se Leva”.
Pedimos mais uma vez aos amigos e leitores que divulguem e recomendem nosso blog. Sabemos que são poucos os leitores mas vamos insistir.
Grande abraço
Leda Senise / Naum Alves de Souza
 
Gente bacana que já passou ou ainda passa por este mundo:
 
LOUISE NEVELSON
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LOUISE BOURGEOIS
 
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LOUISE BROOKS, A MAIS BELA ATRIZ DO MUNDO
 
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LOUISE BROOKS E SUZIE EM 1964
 
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